sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

bem-me-leve

É tarde nublada chamando pela chuva em pleno verão.
É a lágrima que escorre sem demonstrar afeição.
É o mundo.
Navego com os braços cansados de remar.
Fecho os olhos e tento não entender vibrar as cores.
Escuto de longe sussurro ao pé do ouvido, e respiro o frescor do hálito inexistente.
Imagino a forte onda embriagada de solidão a me levar para alto mar.
E enquanto o tempo só passa eu fico aqui sentindo esse vai-e-vem sem fim. 
Escondo-me atrás da máscara colorida e feliz que pintei. Escondo-me por trás da imaginação transbordada em contos de fadas. Escondo-me do grande sentimento que reescrevi.
E ao inventar o mar, a solidão, a plenitude dos ventos eu enxergo a minha volta e caio no abismo verdadeiro em que tentei fugir.
É carnaval, marchinhas de dores de amor.
Sou como Pierrot apaixonado esperando pela bela Colombina que nunca virá.

sábado, 4 de junho de 2011

café gelado

Alumiar,
Invadir sem permissão a minha cabeça, e rodear os meus sentidos.
Aflorando em mim o que já não havia espaço.
Fazendo de mim leve, e sorrindo, o que outrora era impossível descobrir.
Claros olhos, frias mãos, saltitante motivador: coração.
Pra que te tenho em mim nas partes mais lúcidas, a fim.
Constante obrigação entre o que se pede à alma. Entre o que inventa o corpo, e a mente exprime o que já não há matéria.
Ouve-se a voz, fortifica a dor e a solidão. Contente, estável e manipulador.
Coração, fiel e inseguro.

sábado, 30 de abril de 2011

o vôo da gaivota

E em cima das pedras ouço o barulho do mar, o calor do sol, e o frescor dos ventos.
Juntando tudo, ouço uma melodia calma, e leve.
Ergo minhas asas, e vôo o mais alto que eu puder.
Até que o ar fique suspenso, e minhas asas não puderem mais agüentar.
E caio com as asas fechadas, e de bico apontado em direção às águas.
Chegando perto do azul negro do oceano, abro as asas para me equilibrar, encostando a barriga sobre a água gelada.
Pego embalo com o vento, e subo mais uma vez.
Fecho os olhos, e a imensidão do mundo me leva.
Não tenho mais medo do que vier pela frente, sinto-me firme, dessa vez.
Um pouco machucada, com as asas calejadas.
E o coração palpita a cada aterrissagem.
Abro os olhos e me encontro lá no alto, olhando de cima, para o que está lá em baixo.
Busco o que ainda há para se buscar, e ouço as batidas do meu coração acelerar.
É inverno, e o vento forte que avisa que há de vir tempestade, sobre meus ouvidos.
Nada mais me resta, dor, compasso, escuridão. Fico e sinto a tempestade.
Chuva, frio, ondas. E tudo que eu faço é voar em direção contrária aos ventos.
A tormenta começa, e minhas asas não agüentam.
Volto à pedra, e me abrigo só, no vão que encontro entre uma pedra e outra.
O barulho que os pingos da chuva fazem quando encontram o mar, é harmonioso e compassado.
Como o bom sentido, como uma melodia perfeita, como o encontro perfeito entre duas coisas infinitas. E de trás, os relâmpagos fazendo da festa, claridade. Fazendo do fundo,  tristeza. Trovões fazendo o apego ir embora, e descompassado às notas dissonantes.
Fecho os olhos por um instante deixando que apenas meus instintos me levassem a crer em qualquer coisa não dita, em qualquer coisa que ainda não pudesse sentir.
E de uma forma estranha, escuto as batidas do meu coração, quase como se pudesse conversar com os meus pensamentos. Quase como se chorassem por solidão. Quase como se pedisse abrigo, e calor.
E chorando, sem lágrimas.
Poderia tentar voar por cima das nuvens para cessar a dor, mas de nada adiantaria. Continuaria a ouvir os resmungos do meu próprio coração.
Obsoleto, eu sei. Ou não. Só sinto.
E a parte que mais gosto, enquanto há tempestade, é no que vem depois. É ver o céu abrir, as nuvens escuras desaparecerem como se fossem apenas um momento de desabafo. E então a chuva cair mais calma, como se já estivesse feito o que tinha de fazer. Como se já estivesse se soltado do que a agoniava. Como se chorasse tudo que tivesse que chorar, e agora era só lamentação.
Era como me sentia, era como meu coração reagia.
E então o mar, que outrora estava agitado, agora era sonhador e manso; sublime.
Era a imensidão das coisas, e eu só.
Era o acumulo de notas tonantes, vindo de dentro, o que me fazia gemer.
Tudo aquilo que agora eu enxergava, com os olhos abertos, não era nada daquilo que imaginava enquanto meus olhos estavam fechados. 

sábado, 19 de março de 2011

19 de Setembro

29 de agosto, agora.
Dizia Dona Aurora a si mesma, enquanto marcava um XIS em seu pequeno calendário ao lado da cama.
As horas passaram muito rápido naquele dia, enquanto ela ajeitava o quintal que tanto gostava. Regava as flores uma a uma, embaixo do sol escaldante.
Na mão esquerda, a aliança já desgastada de Dona Aurora refletida pela luz intensa do sol sobre ela.
Enquanto isso, seu Félix, a observava de lá da varanda, com um médio sorriso nos olhos.
O dia começou a refrescar, e Dona Aurora ao conversar com suas plantas se esquecera como o tempo passava rápido enquanto ainda tinha sua companhia: suas flores e seu quintal.
Motivação de alguns anos para Dona Aurora, já que não tinha filhos. Um pequeno problema de seu Félix com mundo. Coisa da qual ele nunca se perdoou. Como se pudesse moldar o destino.
Já passavam das 17h30min e o dia começou a escurecer. Levantou-se, foi até a cozinha preparar seu chá da tarde. Ela sentia seus ossos um pouco mais fracos, naquele dia. Sabe lá por que.
Pegou o pacote de bolachas do último natal que ainda restara, sentou-se à mesa, naquele lugarzinho à esquerda que sempre adorava, pois ficava de lado ao seu Félix.
Mastigou a primeira bolacha, engolindo com o chá.
Seu Félix ficava absurdamente atento a todas as manobras de sua pequena esposa, agora tão velha. Sentou-se e continuou a admirá-la. Perguntava-se como podia ele, ter uma mulher tão prazerosa e forte ao seu lado.
Dona Aurora por outro lado, se sentia só. Era como se algo lhe faltasse desde pequena. Algo que ela pensava que seria a família que não conseguira. Mas não era.
Ironia do destino, ou discrepância do mesmo.
Era apenas uma senhora infeliz com suas contas pagas. Sua casa própria. E seu programa de TV favorito, onde naquele dia se apresentava seu cantor predileto.
Ela era uma amante da música. Mas havia abandonado seu piano por já não ter mais condições de tocá-lo. O coração já não se sentia feliz ao tocar cada nota, que outrora, era a maior felicidade de sua existência. Ora, tocar Tom Jobim é para poucos, pensava.
Seu Félix sentado em seu cômodo favorito observava-a incrédulo. Pensava como alguém podia ser tão birrenta. Por que não só sentava a bunda macia naquele banquinho do piano, já com bastante poeira, e tirava as horas perdidas de um mundo vão a qual sua querida se perdeu?
Ele não entendia. Mas sabia o que havia.
Dona Aurora se acostumou com aquela vida meio sem sal.
As noites chegavam, colocava seu pijama rosinha claro, preferido de seu querido. Sentava-se de fronte a penteadeira, olhava-se no espelho e a imagem não lhe fazia feliz. Passava os dedos por suas rugas fundas. De repente rolava uma gota d’água. Como o mundo podia ser tão vazio?
Deitava-se no canto esquerdo da cama, onde era seu lado. Enroscava-se no lençol e se perdia em pensamentos. O frio era demais, mesmo que o termômetro marcasse 22°.  
Pegava o cobertor do armário, se enrolava sobre ele, o frio corporal passava. Mas o vazio de dentro, era cada vez mais gélido. Demorava, mas sempre pegava no sono antes das 22hrs.
Seu Félix deitava ao seu lado, com a barriga pra cima, e olhava-a a cada minuto se certificando de que sua querida estava bem. E no fundo sabia que perdia horas a olhar ela por motivos óbvios: ela era sua vida, e nada era tão mais lindo que sua querida dormindo.
E assim os dias se seguiram lentamente, um por um. A mesma rotina diária. A não ser pelas sextas- feira: dia de feira.
Dona Aurora que adorava pegar sua cesta, mas odiava deixar sua casa.
Era uma tortura trancar o portão e se ver do lado de fora.
Atravessava a rua muito bem cuidadosa, olhava para os dois lados. Seu Félix, sempre ao lado.
Passava a manhã inteira escolhendo os legumes um a um. E as frutas então? Nem se fala.
Ela, que adorava amora, sempre perdia mais de 15minutos olhando, verificando, se certificando que seria uma boa fruta a se comer quando chegasse a casa.
Pegava duas tangerinas, preferida de seu Félix.
Numa dessas sextas-feiras ela se deu conta que o dia já era 18 de setembro.
Acomodou-se cedo naquela noite, pois cedo, do dia que viria, teria de acordar.
Antes de deitar, tirou Félix para uma dança. Uma dança sem música era só ela e ele. Os passos: dois pra lá, dois pra cá. Sorria, sem muito entender o que estava fazendo.
Seu Félix com o sorriso nos lábios.
Então guardara o terno de seu Félix no armário, no cabide de sempre, no lugar de sempre.
Colocara o pijama de sempre, e dormiu, naquela noite, como um neném.
Ao acordar as 7hrs e 30min da manhã de 19 de setembro, assustou-se com a chuva fina.
Colocou seu vestido florido, sua sandália preta preferida.
Ah, seu Félix se divertia ao vê-la se trocando. Principalmente naquela manhã.
Ela então pegou seu guarda chuva, e saiu em direção ao seu destino.
Seu Félix não a seguia naquela manhã.
Ao chegar a seu lugar esperado, olha ao relógio e atira a bolsa no chão, reclamando: - “Seu velho idiota. Como foi me deixar nesse mundo, sozinha?”
Abaixou-se ao túmulo de seu Félix e uma lágrima escorreu.
Fechou os olhos e por um instante lembrou-se dele. Lembrou-se de seu querido deitado numa cama de hospital e sorrindo. Coisa que ele sabia fazer melhor do que esperava.
Ela se lembrava de cada toque dele, não só daquele dia. Mas da vida toda.
Lembrou-se da ultima conversa:
 - “Você me prometeu que ficaria do meu lado pra sempre.” Disse ela.
 - “Eu ficarei, minha querida. Eu sempre estarei ao seu lado.”
 - “Não me venha com isso. Estou com raiva de você. Estou com raiva da vida. E não acredito em vida após a morte. Eu depositei a minha vida em você, e agora nem isso mais eu terei.”
 - “Calma, minha querida. Isso não é o fim. Você ainda vai viver mais do que eu. Pode mudar isso.”- Tentou reconfortá-la.
 - “Mas eu não quero. Eu quero ir com você, porque nada tenho nessa vida além de você.”
 - “Eu lhe prometo que sempre estarei ao seu lado. Em cada minuto da sua vida, estarei lhe observando. Dance comigo. Fale comigo. Deixe o meu lado da cama vazia, pois sempre estarei lá.”
 - “Você me promete?”
 - “É claro. Até porque nada, nem o infinito e o paraíso podem ser completos se eu não tiver você, minha querida.”
 - “Seu velho bobo.” - Sorriu ela, enquanto chorava.
Os olhos dele concentraram-se nos dela. Um medo trocado no olhar.
Ao lembrar-se disso, diante da chuva que escorria lentamente por seus cabelos já grisalhos, fechou os olhos e falou em voz alta:
 - “Eu te amo todos os dias da minha vida. E amarei cada vez mais.”
Ele, posicionado ao seu lado, em pé, falou, mesmo sabendo que ela não podia ouvir, mas talvez sentir: - “eu também, minha querida. Eu também.”
Ela deixou um buquê de rosas de seu quintal. Esse era o maior propósito de cuidar tanto das suas flores. Plantar com devoção, pra colher as mais belas flores e entregar ao seu amor.
Levantou-se, enxugou as lágrimas, desejou feliz aniversário, e virou-se em direção a sua casa.
Seu Félix tomou-se o lugar de sempre, lado direito de Dona Aurora.
Ela não acreditava que ele estaria ao lado dela pra sempre. Mas algo nela fez sentir sua presença naquele dia. Sentiu-se mais confortada, e um sorriso veio aos seus lábios.
Ela não podia pensar em outra vida. Ela o amou. E isso sempre foi o seu necessário.